Classe artística descontente com o desempenho da Ministra da Cultura

Para fazer cumprir as deliberações da Organização Mundial da Saúde e das autoridades sanitárias angolanas, face ao surgimento do novo coronavírus, espectáculos musicais, sessões de teatro, conferências, concertos entre outras actividades foram canceladas desde o mês de Março, factor que tem preocupado a classe artística. 
 
No intuito de saber o estado da cultura angolana em fase da pandemia da Covid-19, a TPA realizou um debate aberto na noite de ontem, 23, cujos convidados foram: Diogo Quintino, em representação a União dos Artistas e Compositores, Adelino Caracol, Presidente da Associação Angolana de Teatro, Kayaya Júnior, Coordenador da APPEC, Nino Republicano, CEO da Produtora LS & Republicano, e Gabriel Cabuco, Director do Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas.
 
Entre os diversos assuntos abordados, os profissionais da arte cultural falaram sobre os dilemas dentro do mosaico artístico e da falta de conexão entre o Ministério e os fazedores das artes, numa altura em que a cultura é um dos sectores mais afectados com o surgimento do novo coronavírus.
 
Apesar de não ter estado presente no painel, Etona defende que a sustentabilidade da cultura era obtida através dos expatriados, uma vez que os mesmos já não se encontram no país, a covid só veio para revelar crises antigas.
 
“A situação já estava gravosa, não temos subsídios de manutenção das associações desde Janeiro, a partir do momento em que não temos esse subsídio, ninguém quer nos escutar, nem o Governo quer fazer juízo a isso, com o surgimento da covid-19 a coisa piorou. Quem sustentava o nosso mercado eram os expatriados e, a partir da altura em que essas pessoas não têm como vir para Angola, ficamos sem rumo, porque o Governo nunca preparou as nossas instituições para essas situações, a covid-19 só veio destapar o que poderia continuar por mais tempo”, disse Etona.
 
Para Adelino caracol, o teatro no Ministério da Cultura parece inexistente, pois não existe uma entidade cultural que possa dar esperança aos actores.
 
 “Em tempos, a Ministra falou sobre um encontro, inclusive estive na reunião e esperava que se debatesse algo sobre os apoios concretos, filas das cestas básicas, mas ficamos mais uma vez na fila da esperança. Estamos cansados da fila da esperança. Quando falamos em políticas da cultura, elas só existem no papel”, expressou o fazedor das artes cênicas.
 
Já o CEO da LS & Republicano destaca que os profissionais da cultura não têm relação com o Ministério, pois, a seu ver, existe uma instituição, apesar da nova estrutura, que quase ou nada faz pela cultura.
 
“Fomos os primeiros a parar e consequentemente os músicos se mobilizaram para fazer uma campanha contra a covid-19, sabíamos que não havia dinheiro, mas demos a nossa arte e imagem como influência para ajudar neste sentido. A primeira menção que vejo foi do Presidente da República a agradecer os artistas e fazedores da cultura, foi a primeira vez que, como representante dos músicos, senti-me parte de uma classe artística. A minha Ministra em nenhum momento veio fazer menção a esses guerreiros que todos os dias têm feito ‘lives’ que começaram nas suas plataformas e hoje são transmitidos em cadeia televisiva para tornar as tardes das pessoas menos desgastantes, porque é difícil ficar em casa”, frisou.
 
Kayaya sublinhou que, se os fazedores da arte dependessem das políticas culturais para sobreviver, todos estariam mortos.
 
“A possível relação com o Ministério da Cultura é aquela que não é séria, não é verdadeira e não é ética. Digo isto porque é algo que já acontece ao longo destes anos. Vamos esquecer a covid, porque o nosso problema com a cultura industrial angolana é antigo, ou seja, resume-se em alguns pontos; continuamos com a cultura politizada em termos práticos, obviamente que o Ministério deve existir para criar políticas para serem implementadas… mas depois tem os fazedores das artes que evoluíram muito, contribuem para o Estado, porém o Estado não dá atenção para essas pessoas. Temos que mudar os paradigmas do Ministério da Cultura.” (PLATINALINE)

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