Quarenta mil táxis “caçam” clientes dia-a-dia nas inúmeras estradas de Luanda

O presidente da Nova Ali-ança dos Taxistas de Angola, Geraldo Wanga, que prestou a informação ao Jornal de An-gola, defende a necessidade de se realizar um novo cadastramento de taxistas por existirem milhares a exercerem diariamente, em Luanda e arredores, a actividade de transporte público de passageiros, fora do controlo das associações existentes.


Além dos veículos convencionais de transporte de passageiros, os chamados “azuis e brancos”, Toyota Hiace, Quadradinho, só para citar esses, existem os mini-autocarros, que efectuam rotas intermunicipais e interprovinciais, os “Girabairro”, que circulam na periferia e casco urbano, sem falar das moto-táxi e moto-boy. Por Luanda, circulam também os veículos personalizados, com taxímetro, e paragens determinadas, entre o AeroPorto, porto, hotéis e supermercados, os chamados “táxi-turismo”, bem como aqueles que vão ao encontro do cliente mediante chamada telefónica, pertencentes a algumas empresas privadas.


De acordo com o dirigente associativo, todos esses servidores públicos chegam a atingir 40 mil viaturas em circulação nas estradas de Luanda, com 300 mil jovens inseridos na actividade, entre motoristas, cobradores e os chamados “lotadores”. 
Geraldo Wanga defende um novo cadastramento, para saber ao certo quantos táxis circulam em Luanda e no resto do país, assim como um maior apoio do sector financeiro para que os agentes do sector possam obter créditos para adquirir meios de transporte para satisfazer a demanda e aferir o número de veículos existentes, seus integrantes e proprietários. 
Os taxistas enfrentam inúmeras dificuldades na realização das suas actividades diárias, disse o líder da Nova Aliança enumerando o mau estado das vias principais, secundárias e terciárias, parque automóvel envelhecido, falta de acessórios de reposição, escassez de divisas para a importação de meios, entre outros.


A Associação Nova Aliança dos Taxistas de Angola controla em todo o país aproximadamente 24 mil associados, com maior realce para a província de Luanda, com 18.500 associados, seguido de Benguela, Huíla e Huambo.


Municipalização dos serviços


Manuel Faustino, presidente da Associação dos Taxistas de Luanda (ATL), disse ao Jornal de Angola que a sua agremiação apoia a ideia do Executivo em municipalizar a actividade de táxi, para que os utentes efectuem o trabalho apenas na localidade onde for emitida a licença.


O veterano presidente da ATL, cuja agremiação nunca realizou renovação de mandatos desde que foi fundada, há mais de 20 anos, acha que ainda não é o momento certo para serem definidas as áreas de actuação, porque existem municípios com uma extensão territorial muito peque-na, o que não satisfaz o rendimento diário, semanal ou mensal dos profissionais.


Nesse ínterim, Geraldo Wan-ga, contradiz dizendo que com a implementação da municipalização dos serviços de táxi, as rotas seriam reduzidas, o que criaria transtornos não só aos profissionais, como também aos passageiros. 
A homóloga ATL queixa-se também da escassez de divisas no mercado financeiro, o que tem dificultado aos seus associados a aquisição de novos veículos e respectivos acessórios, já que a frota é antiga, inoperante e sem esperanças de recuperação. A ATL controla cerca de três mil táxis devidamente licenciados, mas o presidente da agremiação afirma que o número de utentes que circula pelas várias artérias de Luanda é inversamente proporcional àqueles que estão legalizados e associados.


“Temos realizado campanhas de sensibilização, apelando aos proprietários dos táxis e os próprios taxistas a legalizarem-se e a inscreverem-se nas associações existentes, para determinar o número de táxis em circulação em Luanda”, disse Manuel Faustino.


Ensino superior a meta dos associados


Fundada em 2012, a ANATA, está representada no Bié, Bengo, Benguela, Cabin-da, Cuanza-Sul, Huambo, Huíla, Malanje e Uíge e tem como objectivo desenvolver projectos de âmbito nacional em beneficio dos taxis-tas, e procurar soluções viáveis para os problemas dos associados.


Para o quinquénio 2018- 2021, a associação tem como foco formar e transformar o profissional para melhor servirem a sociedade, tendo estabelecido uma parceria com o Instituto de Ensino Superior Uni-Belas para disponibilizar para o ano académico 2019- 2020, um total de 50 bolsas de estudo, em regime de comparticipação.


Numa primeira fase, vão ser priorizados 30 profissionais para o curso de Direito, 10 para Psicologia, cinco para Gestão de Empresas e cinco para Medicina, solicitados pelos próprios associados, em função dos seus desejos.


Outra parceria foi estabelecida com a clínica privada Ango-Cuba, para um plano de saúde, para permitir aos profissionais do sector e seus agregados familiares contribuírem com uma quota de apenas 10 mil kwanzas por mês, para terem direito a assistência médica e medicamentosa.


Hiaces proibidos a longo curso


Através de um Decreto Presidencial, o Executivo angolano proibiu os veículos com menos de 15 lugares, em particular, os de marca Toyota Hiace a efectuarem actividades de táxis nas rotas inter-provinciais, devido ao incumprimento das regras do có-digo de estrada, por parte de alguns utentes.


Além dos elevados acidentes de viação e mortes na sua maioria envolvendo esse tipo de veículos, a falta de condições para o transporte de carga dos passageiros, numa distância de 300 quilómetros, foram as outras razões avançadas pelas autoridades para a proibição do uso de viaturas Toyota Hiace para serviço de táxi de longo curso.


O presidente da Associação Nova Aliança dos Taxistas aplaude a medida do Executivo, considerando-a correcta, aludindo que as autoridades pretendem apenas salvaguardar a vida dos seus concidadãos, já que os acidentes de viação são a segunda causa de morte no país, apenas superada pela malária.


A proibição do uso de veículos da série Toyota Hiace para transporte de longo curso, contribuiu para o aumento de carros dessa marca em Luanda, gerando automaticamente concorrência desleal, porque alguns meios de grande porte não cumprem as rotas obrigatórias.


Conflitos entre Hiaces e autocarros


Os autocarros e mini-autocarros estão hoje a competir com os taxistas dentro das localidades, e a praticar uma tarifa inferior à estipulada que é de 150 kwanzas, “o que não é correcto, por gerar conflitos entre os motoristas”, disse Geraldo Wanga. A fonte do Jornal de Angola é de opinião que os utentes de autocarros e mini-autocarros devem circular apenas nas rotas inter-provinciais e inter-municipais, ou seja, fora das localidades, e deixarem as carreiras urbanas para os taxistas de veículos convencionais.


“Os autocarros de grande porte devem circular apenas nas rotas Cacuaco-Benfica , Estalagem-Catete, Benfica-Barra do Kwanza, Benfica-Zango 4, Mercado do Quilómetro 30-Catete/Cabala/-Muxima”, sugeriu o líder da Nova Aliança dos Taxistas.


“Hoje no troço Luanda-Viana, pela Avenida Deolinda Rodrigues, até ao Largo da Independência, circula um grande número de autocarros e mini-autocarros a carregarem e descarregarem passageiros, o que devia ser evitado”, disse acrescentando que essa tarefa está apenas reservada às operadoras de transporte público privado que operam no casco urbano, no caso da TCUL, TURA, Ango-Real e SGO.


“O Executivo deve analisar e definir os modelos de táxi que devem ser importados e os que podem circular nas zonas urbanas e suburbanas das cidades do país”, sublinhou a propósito.


Taxistas trabalham 16 horas/dia


A profissionalização dos serviços de táxi a nível do país, é um dos maiores desejos da ANATA, que pugna pela existência de um diploma legal para regular o exercício da actividade, inscrição na Segurança Social, para garantir a sua aposentação, bem como regularizar os turnos de trabalho.


Segundo Geraldo Wanga, os taxistas em Luanda trabalham durante 16 horas por dia e 96 horas por semana, e diariamente é-lhes exigida a entrega ao proprietário da viatura 17 mil kwanzas, o que não é fácil arrecadar, “numa cidade engarrafada, com as vias em mau estado e muitos concorrentes”. Para Geraldo Wanga, com a regularização dos serviços de táxi, os profissionais vão poder trabalhar por turnos, dividindo um grupo no período da manhã (das 6H00 às 15H00), e o outro das 15H00 às 22H00.


A crise financeira tem causado transtornos ao sector dos transportes de passageiros, havendo, por isso, um parque automóvel envelhecido, e falta de peças de reposição, que coloca fora de circulação um grande número de veículos e muito desemprego no seio de muitos jovens.


Lotadores estão melhor organizados


Fruto do aperto económico do país, o serviço de táxis foi invadido por um número crescente de jovens lotadores, que se concentram em centenas de paragens em busca de sustento familiar, renda de casa e propinas escolares. Segundo Geraldo Wanga , a ANATA como parceiro social do Estado, e no intuito de ajudar no combate à delinquência, enquadrou como membros vários jovens para continuarem a exercer a actividade de lotador, mas de forma controlada e organizada, num total de 1.210 elementos distribuídos em várias paragens.


"Hoje, os lotadores reconhecidos pelas diversas associações de taxistas de Luanda, trabalham em várias paragens, trajando um colete de cor verde, com símbolo da associação, ajudando os cobradores na recolha de clientes", disse a propósito. Instado a referir-se acerca do papel dos lotadores, o presidente da Associação Nova Aliança dos Taxistas, disse que esses jovens exercem também a função de activistas sociais e fiscalizadores da área onde actuam, organizando os vendedores ambulantes e quitandeiras a trabalharem de forma correcta e organizada nos diversos locais. 
Como fiscalizadores, os lotadores colaboram com os agentes da Polícia Nacional, na identificação de alguns malfeitores que atormentam e furtam pessoas que pretendem apanhar um táxi, vendedores ou outros transeuntes. 
“Com o enquadramento destes jovens, a desordem que se vivenciava nas paragens de Luanda diminuiu, sobretudo, os assaltados no interior dos táxis”, sublinhou Geraldo Wanga, reconhecendo que não foi fácil sensibilizá-los, “porque muitos deles faziam parte de grupos de meliantes que furtavam passageiros, sob efeito de drogas ilícitas”.


Staf: novo modelo de identificação dos veículos


Para a melhor organização e identificação das viaturas que efectuam serviço de táxi, a ANATA implementou, em Luanda, um novo modelo de controlo denominado “Staf”, composto até ao momento por 395 grupos de Viana, Cacuaco e Kilamba-Kiaxi, onde 80 por cento dos filiados fazem parte.


As “Staf's”, são pequenos grupos de taxistas distribuídos por municípios, distritos e bairros, identificados por siglas, nomeadamente, “Rádio Cazenga”, “Os 23 do Zango”, “Potência Máxima de Viana”, “Os Confirmas do Rangel”, “Eu e Elas”, “FBI”, “Os Milionários”, entre outras designações, com rotas previamente definidas durante o dia e geralmente inalteráveis.


“As denominações dos grupos são estampadas no exterior dos táxis, em partes visíveis, para melhor identificação dos profissionais da área”, disse o líder da Associação Nova Aliança dos Taxistas, tendo frisado que a ideia da implementação das “Staf's” visa facilitar os passageiros e órgãos da Polícia Nacional na localização do veículo e do seu utente em caso de ocorrência de uma acção criminal. No final da jornada laboral, as “Staf's” reúnem-se num determinado ponto da sua área de jurisdição, montam tendas e realizam uma pequena tertúlia, onde cada profissional expõe os principais constrangimentos e ocorrências registadas durante a actividade. Para Geraldo Wan-ga, o serviço de táxi não é apenas para indivíduos com um nível de escolaridade baixo, como muita gente supõe, alegando ser uma actividade laboral onde muitos dos integrantes possuem formação superior, mas exercem essa profissão por falta de em-prego no ramo de formação.


Assaltos no interior dos táxis


Nos últimos meses registaram-se na cidade de Luanda inúmeros assaltados à mão armada no interior dos táxis, por presumíveis taxistas, que actuavam fora das localidades. A ANATA, preocupada com a situação, colaborou com a Polícia Nacional na identificação dos supostos criminosos, tendo sido detidos alguns indivíduos residentes no município do Cazenga, entre taxistas e cobradores, que alegaram serem aliciados por meliantes, com 25 mil kwanzas por dia. 
Os indivíduos furtavam os veículos no centro da cidade e actuavam nas áreas do Benfica, Kilamba, Vila de Viana, Primeiro de Maio e no final da actividade abandonavam os meios nos bairros.


“Com a intervenção oportuna da Polícia Nacional, em colaboração com os profissionais do sector, alguns casos já foram esclarecidos, estando de momento a situação sob controlo, e os meliantes a contas com a justiça”, afirmou Geraldo Wanga, satisfeito com o resultado.

Categoria:Nacional

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