Um novo começo

O Presidente da República, João Lourenço, transmitiu ao Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a sua indignação pelo facto de migrantes africanos estarem a ser vendidos como escravos na Líbia.

A posição foi manifestada ontem, em Abidjan, durante o encontro que o Chefe de Estado angolano manteve com o Secretário-geral da ONU, à margem da Cimeira União Africana - União Europeia, que decorre na capital económica da Costa do Marfim.

A informação foi citada em declarações à imprensa, pelo ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, no final do encontro entre o Presidente angolano e António Guterres. Trata-se, segundo o chefe da diplomacia angolana, de uma situação desagradável, cujos responsáveis devem ser punidos.
De acordo com Manuel Augusto, o Secretário-geral das Nações Unidas sublinhou o relevante papel de Angola em prol da manutenção da paz e estabilidade na África Austral e na região dos Grandes Lagos. A reunião com o diplomata português que dirige a ONU foi um dos pontos altos da preenchida agenda do Presidente da República, antes da abertura da cimeira, no início da tarde.
A reunião que manteve com António Costa, Primeiro-ministro português, constituiu, igualmente, momento significativo da jornada de trabalho de João Lourenço em Abidjan. Em declarações que fizeram eco na imprensa portuguesa, António Costa afirmou que a relação entre Angola e Portugal não pode continuar ensombrada por casos judiciais, numa presumível menção a processos desencadeados em tribunais portugueses contra dirigentes angolanos.
Sem ter sido peremptório relativamente a uma deslocação a Angola, António Costa referiu que “uma visita a um amigo deve ser feita sempre num bom ambiente”. O Primeiro-ministro português foi, entretanto, mais expressivo na sua página da rede social Instragam, onde tem um perfil aberto. No princípio da tarde de ontem, já tinha postado duas fotos a retratar contactos que manteve em Abidjan.
“Tive hoje um encontro muito produtivo com o Presidente da República de Angola. Uma reunião muito positiva, em que foi feito um ponto da situação das nossas relações bilaterais, que no plano político e económico são excelentes. Manifestamos a vontade comum de estreitarmos as nossas relações”, escreveu António Costa. A publicação gerou várias reacções positivas. “Força, nós precisamos de boas relações com Angola. O senhor sabe fazer as pontes”, aplaudiu um internauta.
Da actividade de ontem do Chefe de Estado angolano, sobressaíram ainda encontros com o Primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada, e com o presidente do Parlamento Europeu, António Tajani. No princípio da noite de terça-feira, dia em que desembarcou na capital marfinense, João Lourenço reuniu-se com o seu homólogo do Chade, Idriss Déby, com quem passou em revista questões de interesse bilateral.
 A 5ª cimeira entre a União Africana e a União Europeia, que conta com a presença de pelo menos 80 chefes de Estado e de Governo, incluindo o Presidente João Lourenço, decorre até hoje na capital económica da Côte d'Ivoire, Abidjan, subordinada ao tema "Investir na Juventude para um Futuro Sustentável".
O lançamento de um Plano Marshall para África e a criação de um programa de Erasmus (apoio inter-universitário) para jovens empreendedores são algumas das propostas para a cimeira.
O encontro marca dez anos de parceria entre os dois blocos. Está a ser encarado como um ponto de viragem, com destaque para a vertente demográfica. Em 2050, África terá o mesmo número de pessoas que tem hoje a Índia e a China juntas, e mais de metade da população terá menos de 25 anos.
Os aspectos ligados à juventude assumem carácter prioritário, sobretudo por esta constituir mais de 60 por cento da população do continente. É a pensar no facto de a maioria dos africanos ter menos de 25 anos que políticos, diplomatas e representantes de várias áreas do saber estão a incidir nas suas intervenções.
É opinião generalizada nos bastidores da cimeira que, não obstante alguns passos dados desde a primeira vez que os dirigentes africanos e europeus se juntaram, em 2000, no Cairo, há ainda um longo caminho a percorrer para se atingirem os objectivos traçados. Dezassete anos depois, há a assinalar o adiamento da implementação de vários   programas de desenvolvimento em distintas matérias no continente. 

                                                       Crise de refugiados ensombra as relações


A crise
 dos refugiados africanos que, diariamente, cruzam várias fronteiras para se aventurarem no Mediterrâneo em busca de segurança na Europa é um dos assuntos que ensombra as relações entre Europa e África. De resto, esse capítulo alonga a série de questões perturbadoras para a juventude do continente.
Embora não se traduza num ponto específico da agenda, acordada previamente, os observadores estimam que a recente denúncia da escravização de jovens africanos na Líbia seja um ponto incontornável das discussões temáticas, que incluem os itens sobre a democracia, direitos humanos, a migração e a mobilidade. Paz, segurança, o reforço das oportunidades económicas para os jovens e cooperação em matéria de governação constituem igualmente temas prioritários da cimeira, realizada num ano considerado determinante para as relações entre a União Europeia e África. 
Vale recordar que já se passaram dez anos desde a adopção da Estratégia Conjunta para os dois blocos, como se lê numa página de Internet do Conselho Europeu. África, a Europa e o mundo estão atentos ao que se passa em Abidjan. 
Em distintos círculos a Cimeira UA-UE é vista como momento decisivo para o reforço dos laços políticos e económicos das regiões que depois de terem mudado o estatuto de colonizador e colonizados tentam buscar fórmulas para uma cooperação realmente vantajosa nos dois sentidos. Em Abidjan, nos corredores do hotel onde se realiza a cimeira e nas áreas adjacentes, não passa despercebida a presença de jovens africanos e europeus que se desdobram em vários eventos paralelos.

TEXTO: Luísa Rogério | Abidjan

Categoria:Internacional

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